Castelo de Chinon – a epifania de Joana D’arc e do martírio do líder templário Jacques de Molay

As ruínas do Castelo de Chinon, ou fortaleza de Chinon, no interior da França, próximo ao Vale do Loire, ainda guardam em suas paredes relíquias de memória da história da França durante os sombrios tempos da idade medieval. Desde a epifania da jovem e destemida camponesa, depois santificada Joana D’arc, até a fortaleza dos cavaleiros templários na França, a partir do qual, todas as estratégias para as Cruzadas eram traçadas, bem como o centro de treinamento dos templários, até a agonia dos últimos dias do último líder templário Jacques de Molay, enquanto aguardava seu julgamento e sentença de morte.

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Localizado no cruzamento das províncias de Anjou, Poitou e Touraine, próximo ao vale do Loire, em uma montanha estratégica, a Fortaleza de Chinon foi erigida no século X pelo príncipe Geoffrey, filho do mítico conde de Anjou Geoffrey Plantagenet, como ponto estratégico de defesa e controle do norte da França. Mais tarde, a região passou a ser controlada pelos ingleses e Henri II, conde de Anjou e rei da Inglaterra,  redefiniu toda a arquitetura da fortaleza, inspirada no forte de São Jorge, em Jerusalém. Após idas e vindas entre domínio francês e inglês, em 1205, o rei francês Filipe Augusto, construiu as diversas torres que que compõem o castelo. Durante muitos séculos, os reis franceses eram entronados nesse castelo, que iniciou sua decadência por volta do século XVII, quando passou ao controle do cardeal Richelieu.

dsc_0627Esse Castelo é um dos inúmeros Castelos que ficam localizados no Vale do Loire, e suas paredes contam as passagens mais importantes da história da França, e da civilização ocidental. Durante o período medieval, uma das ordens de cavaleiros mais míticas que já existiu, a ordem dos Cavaleiros do Templo, ou templários, floresceu e atingiu grandes conquistas, na luta pela expansão do Cristianismo até os mais longínquos lugares do Oriente Médio, inclusive estabelecendo um reino Cristão em Jerusalém. A história da fundação do Ordem do Templo vem após a conquista de Jerusalém pelos cristãos, após a primeira cruzada, em 1118, por Hugh de Payerns e mais 2 cavaleiros, inclusive Ignácio de Loyola, o posterior fundador da ordem dos Jesuítas, então cavaleiro na época, que permaneceram durante anos estudando o antigo templo de Salomão, atual Mesquita de Al-Aqsa, no mítico monte Moriah. Segundo os registros, esses cavaleiros descobriram várias relíquias da civilização judaicocristã, incluindo a arca da aliança. A função da ordem era servir inteiramente ao Cristianismo, proteger os peregrinos em sua passagem a Terra Santa, coletar e proteger as relíquias Cristãs, disseminar a fé em Cristo, mesmo que isso acarretasse a famigerada “Guerra Santa”. Os templários eram chamados de “Pobres Cavaleiros de Cristo”, e tinham como lema:”Non nobis Domine, non nobis, sed nomini tuo ad gloriam” (Slm. 115:1 – Vulgata Latina) que significa “Não a nós, Senhor, não a nós, mas pela Glória de teu nome”. Receberam apoio do rei de Jerusalém Balduíno  II, e foram aprovados pelo papa Honório II em 1128, transformando-se em ordem religiosa e militar. Grande parte do código templário foi escrita por São Bernardo, um dos importantes monges templários. O código de conduta templário era extremamente restrito, os monges da ordem deviam adotar a castidade como regra de vida, não acumulavam bens materiais para si próprios, mas apenas para a ordem, sempre andavam em dois, até como forma de se protegerem durante as batalhas. O fato é que a ordem acumulou muitos bens materiais, com construções de castelos e fortalezas por toda a Europa e ao longo do Oriente Médio. Tornou-se tão rica quanto o clero, e a própria realeza. Em todas as cruzadas que partiam da França, a reunião dos diversos grupos templários acontecia na fortaleza de Chinon, para traçar estratégias militares, e, ao mesmo tempo receber a benção do rei da França e do clero.

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O século XIV trouxe consigo um dos trágicos aspectos da Fortaleza de Chinon. A França passava por dificuldades econômicas e financeiras, e o rei, Filipe IV, O belo, devia uma boa quantia financeira aos cavaleiros templários. Além disso, o rei se amargurava de não ter sido aceito na ordem templária por se recusar a abdicar de seus bens e terras. Filipe iniciou, portanto, uma campanha de difamação por toda a Europa contra os cavaleiros templários, acusando-os de heresias e toda sorte de impropérios, principalmente pelo comportamento de ortodoxia dos cavaleiros templários. A ordem de prisão foi redigida em 14 de setembro de 1307 no dia da exaltação da Santa Cruz e, no dia 13 de outubro de 1307 (uma sexta-feira) o rei obrigou o comparecimento de todos os templários da França, para se encontrarem no Templo, em Paris. Esse dia foi o início da lenda sobre a sexta-feira 13, por marcar a data em que toda a ordem templária foi declarada como herética e criminosa. Os templários foram encarcerados em masmorras e submetidos a torturas das mais variadas possíveis para se declararem culpados de heresia e, além disso, entregarem os eventuais companheiros que pudessem ter escapado ao chamado do rei. O Grão-Mestre da ordem, Jacques de Molay, foi encarcerado em Chinon, aonde permaneceu por cerca de 2 anos, aguardando o julgamento e sentença.

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Calabouço aonde Jacques de Molay ficou preso por durante 2 anos, aguardando a sentença e sendo submetido a toda sorte de torturas em Chinon

Desenhos na Parede do calabouço feito por Jacques de Molay, aonde ele esboça um desenho do Arcanjo São Miguel, São João Batista e da Virgem Maria, em Chinon

Jacques de Molay foi executado na pont Neuf em Paris, queimado na fogueira em 18 de março de 1314, aos 72 anos. Mas sua morte foi profética: em suas últimas palavras, Jaques de Molay esconjurou uma maldição em seus algozes, convocando Filipe e o papa Clemente para encontrá-lo dentro de um ano e um dia perante Deus, para serem julgados por seus crimes. Seja a lenda verdadeira ou não, no exato período descrito por Molay ambos os responsáveis pelo fim dos templários estavam mortos.Esta série de eventos formam a base de “Les Rois Maudits” (“Os Reis Malditos”), uma série de livros históricos de Maurice Druon. Luís XVI, de França, (executado em 1793) era um descendente de Felipe, O Belo.img_8186

O famoso pergaminho de Chinon, que ficou durante muitos anos escondido nos arquivos secretos do Vaticano, consta algumas confissões controversas em relação aos cavaleiros templários, tomadas mediante a tortura. Nele, os templários admitiram parte da culpa herética e confessaram um estranho ritual em que os novos membros da ordem deviam cuspir em uma cruz. Esse ritual de iniciação servia para definir em que patente o candidato a templário se encaixaria. Caso ele se recusasse a cuspir na cruz, significaria que não mudaria suas posições ou convicções, portanto deveria assumir postos administrativos. Caso aceitasse o pedido de cuspir na Cruz, seria um bom soldado guerreiro, haja visto que acataria ordens com facilidade. No ano seguinte, o grão-mestre negou todas as acusações, porém um dos membros da Ordem disse ter visto o ídolo Baphomet – uma divindade supostamente ligada aos templários na cidade de Montpellier. Até o fim de 1309, os templários revidaram, retiraram o que haviam sido obrigados a confessar e reagiram aos ataques, o que adiou o julgamento do caso. O fato é que no julgamento final da Inquisição francesa, os templários foram absolvidos de todos os seu crimes ou acusações de heresia. Mesmo assim, o Rei Filipe mandou-os a fogueira, ignorando o julgamento feito pela inquisição católica. O pergaminho de Chinon fica exposto nas paredes da antiga fortaleza. Em 1312, o papa Clemente V lançou a bula papal Vox in excelso, na qual extingue a ordem dos cavaleiros templários e ordena que todas as propriedades e castelos da ordem sejam passadas para os cavaleiros hospitalários, outro ordem cavalariça da época.

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Pergaminho de Chinon demonstrando o resultado final do Julgamento, aonde os templários foram absolvidos de seus supostos envolvimentos com heresia e satanismo

A extinção da ordem templária, com a inevitável morte de seus membros, foi uma das maiores injustiças cometidas ao longo da história da civilização ocidental. Mataram os líderes, mas ficou a mítica ordem, com seus códigos de cavalaria, humildade, ética e, sobretudo, a fé no Cristianismo. Mas nem todos os templários foram aniquilados, cerca de 10o monges guerreiros escaparam a partir do Mont Saint-Michel em 30 embarcações, para Portugal, aonde o rei Português Dom Dinis os esperava para ajudar a expulsar os mouros da península ibérica. Novas ordens foram fundadas, com denominações diferentes. Além disso, muitos templários de outra nacionalidade, fugiram para o Reino Unido e Escócia, aonde ajudaram a fundar outras ordens, incluindo a Maçonaria.

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Outro evento histórico que aconteceu na Fortaleza de Chinon foi a epifania de Joana D’arc, em meados do século XV. Em 1429, enquanto o príncipe regente Delfim Charles VII tinha sua legitimidade questionada para assumir o reinado da França, um impasse gerado pela morte de ambos os reis da França e Inglaterra, em um período de 2 meses de diferença, a jovem camponesa Joana D’arc, caminhou por 11 dias, jejuando, para se encontrar com o regente, e garantir que recebera vozes e mensagens de Santa Catarina, e do próprio arcanjo São Miguel, de que Charles VII deveria assumir a coroa francesa. Esse evento ocorreu no meio da Guerra dos 100 anos, e parte do norte da França era controlada pelos Ingleses. Talvez esse encontro entre Joana D’arc e o príncipe Charles VII foi um dos pontos cruciais para a guinada na guerra dos 100 anos em favor da França.

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Salão aonde a Jovem camponesa Joana D’arc se encontrou com toda a realeza e alto clero, e conseguiu convencer o Delfim Charles VII a assumir o Reinado da França

Joana D’arc foi enviada pelo Delfim para análise pelos doutores da Igreja, para saber se ela dizia a verdade, o que foi constatado pela Igreja, em Poitiers. Charles foi convencido por Joana D’arc, e a enviou para Orléans, junto com as tropas francesas para guerrear contra os ingleses. Segundo a lenda, com medo de apresentar o delfim diante de uma desconhecida que talvez pudesse matá-lo, os nobres decidiram ocultar Charles VII em uma sala cheia de nobres e membros do clero, sem sinalizar, ao certo, quem seria o Delfim. Joana D’arc, então teria reconhecido o rei disfarçado entre os nobres, sem que jamais o tivesse visto antes. Ela teria ido até ao verdadeiro rei, se curvado e dito: “Senhor, vim conduzir os seus exércitos à vitória”.

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Joana D’arc vestia-se com roupas masculinas, já que convivia com soldados nos campos de batalha, como forma de esconder sua feminilidade, tanto que conservou sua virgindade até os últimos dias de sua vida. Sua história é bastante controversa, sendo considerada santa pelos franceses, eleita a Santa Padroeira da França, devido a suas vitórias na Guerra dos 100 anos, porém para os ingleses, era considerada uma Bruxa, com todas as visões e aparições que julgava ter recebido e visto. O fato é que uma simples camponesa, liderou exércitos de 4000 a 8000 homens, obtendo vitórias importantes para a França, inclusive na região de Orléans. Por isso é considerada a Dama de Orléans. Joana D’arc mergulhou toda a França num misticismo exacerbado, durante a era medieval, inclusive foi companheira de armas de uma das figuras mais controversas do mundo ocidental, o Conde Gilles de Rais, que, após a morte trágica de Joana D’arc, abandonada pelo próprio exército , capturada pelos ingleses e queimada em praça pública em Rouen, sem receber resgate ou ajuda do rei Charles VII, tornou-se o primeiro serial killer da história do mundo ocidental, matando cerca de 1000 pessoas em seu Chateau, o Chateau de Tiffages, aonde submetia as vítimas a rituais satânicos e toda sorte de despautérios. Gilles de Rais é tema do livro Lá Bas, de Joris Karl Huysman, onde se faz uma boa análise do que representou a controversa personagem Joana D’arc. Huysman foi o escritor francês, expoente do movimento decadente, no século XIX. 

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Essa é  história da Fortaleza de Chinon, um dos castelos mas históricos do Vale do Loire. Para saber mais informações e endereço do Castelo visite o site http://www.forteressechinon.fr/index_en.php.

Carpe Diem!!!

2 Comments Add yours

  1. Celeste says:

    Parabéns! O texto ficou lindo!!! 😘👏👏

  2. José Américo says:

    Maravilha !!!😎😎😎😎👏

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