Ghent – a cidade do Retábulo dos irmãos Van Eyck e os caçadores de obras-primas

Continuando nossas peripécias na Bélgica, nosso próximo destino é a mítica cidade de Ghent, que dista cerca de 50km da cidade de Bruges e de Bruxelas, local onde repousa eternamente, não após muitas lutas, o fantástico retábulo dos irmãos Van Eyck, que sintetiza toda a história do cristianismo em 12 peças.

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Entre os século XI e XIII, Ghent chegou a ser a segunda maior cidade da Europa, perdendo apenas para Paris. Seu nome, deriva da palavra céltica ” Ganda”, que significa confluência. Ghent foi uma grande cidade, sendo a primeira zona industrial da Europa na alta idade média. Hoje em dia, Ghent é a terceira maior cidade da Bélgica, com pouco mais de 200 mil habitantes. A visita a cidade pode ser feita em apenas um dia, como bate-e-volta a partir de Bruges ou Bruxelas. Nós a conhecemos a partir de Bruges.

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Circular a por Ghent e seu centro histórico é a grande atração da cidade, com seus canais que circundam-na, fazendo-a quase que como uma cidade irmã de Bruges. A ponte Sint-Michielsbrug ( St. Michael’s bridge) é a principal ponte que cruza a cidade, levando-nos ao centro histórico. As principais atrações da cidade de Ghent são:

  1. Catedral de São Bavo (Sint-Baafskathedraal)

A Catedral de São Bavo foi erigida no século XIII, sobre os despojos de uma capela erguida em homenagem a São João Batista datada do século X. Homenageia São Bavo, padroeiro da região de Flandres, e tido como santo protetor dos falcoeiros. São Bavo morreu em Ghent no ano de 659, tendo sido monge durante grande parte de sua vida, após doar todos os seus bens aos pobres e viver uma vida humilde. Além de abrigar em seu interior o fabuloso retábulo ” Adoração do Cordeiro Místico”, dos irmãos Van Eyck, também possui a pintura do mestre de Flandres Rubens “A entrada de São Bavo no mosteiro”.

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O retábulo “Adoração do Cordeiro Místico”, é a obra de arte mais roubada e que apresenta a história mais conturbada da civilização ocidental. Foi pintada pelos irmãos Van Eyck no século XV, sendo iniciada por Hubert Van Eyck, que veio a falecer em 1426, ficando a cargo do seu irmão mais novo Jan Van Eyck terminá-la em 1432. É considerada obra de arte mais importante do ocidente, por ser precursora do renascimento europeu, e por retratar de maneira fidedigna toda a história do cristianismo. Caracteriza-se por 12 peças, que configuram 24 pinturas, variando conforme a abertura ou não da peça.

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Na parte superior, podemos ver ao centro Jesus Cristo entronizado, rei dos reis, lado a lado com João Batista e a Virgem Maria. Nas laterais um coro de anjos e outro anjo organista. Nas extremidades, podemos ver Adão a direita, e Eva a esquerda, com detalhes de Cain matando Abel, na extremidade superior da peça sobre Eva. Na porção inferior, pode-se notar o cordeiro místico, sendo adorado por filósofos e santos, e nas extremidades da obra, a direita os cavaleiros de Cristo, e a esquerda, os peregrinos. Abaixo, podemos notar um esquema da obra, de uma edição francesa sobre o estudo dessa obra.

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É a obra mais pilhada da história da humanidade. Em 1556, com a reforma protestante, militantes protestantes tentaram entrar na Catedral de São Bavo para destruir a obra, por considerá-la exemplo da idolatria católica em relação a anjos, santos e a Virgem Maria. O retábulo foi desmontado e escondido na torre da Igreja, resistindo incólume a revolta protestante. Passado o período protestante, foi alvo dos despojos das Guerras Napolêonicas, tendo ido parar na França. Com o fim do poderio napoleônico, a obra voltou para Ghent, e foi vendida para o governo alemão. Permaneceu em Berlim até o século XX, onde Hitler se apoderou da obra, escondendo-a no Castelo de Neuschwanstein, na Baviera. Com a iminência da derrota, Hitler escondeu a obra em minas de sal da Áustria, onde planejava destruí-la, juntamente com todas outras obras de arte pilhadas pelos nazistas. Se o terceiro reich caísse, a idéia era levar boa parte da cultura ocidental junto com o reich. Felizmente, um grupo de arquitetos, artistas, e estudiosos de arte, formado por cerca de 350 pessoas, participaram no resgate dessas obras durante os turbulentos anos de guerra. Essa passagem é bem retratada no filme “Caçadores de Obras-Primas”.dsc_1041

O retábulo de Ghent fica na Catedral de São Bavo, exposta em uma área específica da igreja, basta seguir as placas que se acha rapidamente a obra-prima.

2. A Torre do Sino (Belfort)

Uma das jóias da cidade e a torre do sino, chamada Belfort. Sua construção teve início do século XIII, e é juntamente com o Belfort de Bruges, patrimônio histórico da humanidade.

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Também é o relógio da cidade, e já funcionou, durante a idade média, como prisão. A vista lá de cima rende fotos belíssimas de toda a cidade.

3. Igreja de São Nicolau (St. Nicholas Church)

Igreja mais antiga da cidade, foi construída no século XIII. Faz parte do conjunto de construções medievais da cidade de Ghent. São Nicolau é um santo muito popular e admirado por toda Europa, bispo de Constantinopla, que morreu no ano 350, no dia 6 de dezembro. É conhecido como protetor dos pobres e, principalmente, de crianças carentes, sendoo primeiro santo da igreja a se preocupar com a educação e a moral tanto das crianças como de suas mães. Também é associado ao natal, sendo conhecido como Santa Claus, ou Papai Noel.

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Um dos tesouros da igreja é o seu órgão, produzido pelo famoso construtor Francês órgão Aristide Cavaillé-Coll.

4. Castelo dos Condes (Gravensteen)

Verdadeiro exemplo de um castelo medieval conservado em pleno centro da cidade. Foi construído em 1180 pelo Conde Philip da Alsácia, sendo morada dos condes de Flandres até o século XVI. Depois passou a ser uma penitenciária, até ser restaurado no século XIX, quando foi adquirido pela prefeitura da cidade.

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O interior do Castelo apresenta uma sala de torturas, com instrumentos utilizados durante a idade média, e também uma sala com várias armas em exposição.

Ghent é uma cidade pequena, linda e vale a pena para uma visita tipo bate-e-volta. Vale a ida, nem que seja para admirar o retábulo de Ghent, dada a importância histórica da obra.

Carpe Diem!!!

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