Brocéliande – A floresta de Merlin e as origens do Ciclo Arturiano

A Floresta de Brocéliande, localizada na cidade de Paimpont, na Bretanha, a 300km de Paris, é conhecida por abrigar as origens das lendas sobre o ciclo Arturiano. Segundo os místicos e a cultura céltica, a alma de Merlin vaga por essa floresta, sendo inclusive seu suposto túmulo encontrado em seus domínios.

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A história do Rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda ainda é muito controversa na literatura. Muitas correntes acreditam na sua existência real, outros textos acreditam que foi apenas uma fábula medieval. Sabe-se que a história de Arthur apareceu pela primeira vez através do livro de Goffredo di Monmouth, em 1136, intitulado “História dos Reis da Bretanha”, através do qual ele explica as origens dos reis da Grã – Bretanha, com suas linhagens e sucessões até então. Segundo esse autor, Arthur era um líder bretão que lutou pela libertação da Inglaterra e das ilhas britânicas, contra a invasão anglosaxônica no período de 480 – 520 d.C, obtendo sucesso na sua libertação, unindo os povos britânicos e celtas sob um mesmo comando, tornando-se o primeiro rei Inglês da história.

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A história clássica do ciclo arturiano, segundo Howard Heid, em seu livro “Arthur the Dragon King” nos remonta a um período em torno do século V e VI d.C, no qual o Rei Uther Pendragon, estava construindo um castelo na região da Cornuália Britânica, e todos as pedras colocadas durante o dia, rolavam misteriosamente a noite. Os magos da corte foram consultados e indicaram a necessidade de sacrificar um jovem menino druida, e com seu sangue, aspergir as paredes do castelo. A criança se chamava Merlin, e escapou da morte graças a um conselho de sua própria autoria, que orientou escavar uma gruta profunda, onde hibernavam dois dragões, o dragão branco, representando os saxões e o dragão vermelho, representando os britânicos, e sobre essa gruta fundar os alicerces do Castelo. Merlin foi adotado por Uther Pendragon e passou a ser seu conselheiro e mago.

Uther Pendragon apaixonou-se pela esposa do Duque da Cornuália, e pediu a Merlin, que através de magia, o fizesse ter uma noite com a duquesa, assumindo a personalidade física do Duque. Merlin prometeu ajudá-lo, mas exigiu que o filho proveniente dessa união lhe fosse dado logo após o nascimento, para que o mago pudesse criá-lo. Uther então, certa noite, adentrou o Castelo de Tintagel, e enganando a pobre moça, teve uma noite de amor com ela. Enquanto isso, o duque era morto em batalha. Certo tempo após, a duquesa descobriu-se grávida, e a armação perpetrada por Uther, mas perdoou-o e aceitou casar-se com ele. Tão logo Arthur nascia, Merlin já se apoderou da criança para consagrá-lo a ordem Druida e administrá-lo seus conhecimentos.

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O jovem Arthur foi criado por  Merlin, nas florestas da Bretanha e da Grã-Bretanha, mas sempre desconhecendo de sua linhagem real. Aprimorou-se nas artes da cavalaria e das batalhas, quando foi convidado a corte real para prestar condolências ao Rei Uther, morto sem deixar herdeiros conhecidos. Merlin, então, realizou a famosa cena, em que fincou uma espada numa rocha, e por poderes mágicos, declarou que aquele que conseguisse desencravá-la da rocha seria considerado rei por direito. O jovem Arthur obteve sucesso na empreitada, foi declarado rei e passou os primeiros períodos de seu jovem reinado combatendo rebeliões com sua Excalibur. Fez seu reinado na localização de Camelot, e criou a famosa Távola redonda, onde todos os cavaleiros sentavam-se olhando uns para os outros, sem hierarquias e ou posições privilegiadas. O rei Arthur casou-se com Guinevere, (rainha da terra do verão, que alguns atribuem a região da Cornuália) e deu início a era de ouro de seu reinado. Após a batalha no Monte Badon (localizado na cidade de Bath), Arthur consegue expulsar os invasores saxões de sua ilha.

Poucos anos depois conhece o cavaleiro Lancelot, que era bretão, e também possuía uma espada mágica, dada pela dama do Lago, a mesma que consagrou Excalibur para Arthur. O rei acolhe Lancelot em seu castelo e junto aos cavaleiros da Távola Redonda, mas sem saber que ali iniciaria a decadência de seu reino, com a paixão proibida entre Lancelot e a rainha Guinevere.

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Ainda segundo as lendas arturianas, Arthur inicia junto com seus cavaleiros a busca pelo cálice que continha o sangue de Cristo, e também utilizado na Última Ceia, o Santo Graal, que fora deixado pelo discípulo José de Arimatéia na região da Bretanha quando da perseguição dos Judeus aos Cristãos nos primórdios do século I d.C. A busca pelo Santo Graal deveria ser feita por um Cavaleiro de alma pura. Lancelot apresentava a alma imaculada devido a paixão por Guinevere, também Parsifal, Gauvain e Boors tinham a alma imaculada. O cavaleiro que apresentava-se a altura desse feito era Galahad, filho de Lancelot. Esse foi o único cavaleiro que se sentou no famoso “assento perigoso”, assento que ficava em frente ao Rei Arthur e só poderia ser usado por um homem de alma nobre e pura. O Santo Graal foi trazido a Camelot, porém o rei Arthur durante a busca pelo Graal, havia deixado o reino sob a tutela de seu filho Mordred (fruto de uma relação incestuosa com a irmã Morgana, uma mulher de poderes maléficos que usou de magia negra para seduzir o próprio irmão). Daí encontramos um paralelo com a história do rei Ricardo, coração de leão, que foi traído pelo irmão durante as cruzadas, também Arthur foi traído pelo próprio filho, que se declarou soberano da Inglaterra na ausência do pai. Fato é que Arthur derrota o filho, destituindo-o do trono, mas mortalmente ferido na batalha é morto também, sendo conduzido por Belvedere, seu fiel escudeiro, as ilhas de Avalon, onde nesse lago a famosa Excalibur é lançada ao lago e Arthur conduzido através de uma barco até o centro do lago, ao encontro da Dama do lago, onde repousaria e retornaria caso o reino necessitasse.  Foi declarado o “rei único e futuro”.

Inspirados em todas essas lendas e histórias chegamos a cidade de Paimpont, vindos do Mont Saint-Michel, pela autoestrada A84, uma viagem de 123km, atravessando da Normandia até a Bretanha. A floresta de Brocéliande é muito grande, com cerca de 7000 hectares, e a menor parte pode ser visitada. As atrações importantes ficam afastadas uma das outras, daí a importância de se fazer o percurso de carro.

Primeira parada do passeio é a Abadia de Paimpont, um edifício de pedras construído inicialmente no século VII e reconstruído no século IX depois de ter sido destruído pelos Normandos. A atual abadia, em estilo gótico, é do século XIII. A nave tem a forma de um casco de barco virado para baixo, e a Nossa Senhora de Paimpont, uma imagem do século XIV, tem lugar de destaque na nave.

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Ao lado da Abadia de Paimpont encontra-se um posto de informações turísticas, no qual pode-se pegar informações sobre a floresta, os principais locais para se visitar e um mapa com as indicações dos lugares e como chegar. Para quem quiser, existe uma aula de cerca de 40 minutos, sobre a floresta, suas histórias e lugares místicos. Mapa em mãos, pausa para o almoço no gostoso restaurante “Le Relais de Brocéliande”, em frente a abadia, bem no centro de Paimpont. Nesse local provamos os famosos crepes bretões.

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Alimentados e ansiosos, partimos para a primeira parada, guiado por nosso mapa, e um bom GPS…

O Vale sem Retorno

Segundo a história, era aqui que a feiticeira Morgana abandonava os seus amantes infiéis. Morgana era meia-irmã do Rei Artur, foi criada por Viviane (amante do mago Merlin) e seguia os princípios celtas, que tinham o domínio das forças da natureza. No local existe ainda um lago chamado “Espelho das Fadas”, como o próprio nome sugere, morada de fadas.

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Lancelot foi o único que conseguiu escapar do vale sem retorno. As lendas celtas da Bretanha – apesar de serem muitas e não chegarem a um consenso – falam todas sobre mundos paralelos ao nosso. O Vale sem Retorno seria um deles.

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A árvore de ouro de Broceliande foi implantada em 1991 depois de um incêndio que destruiu cerca de 500 hectares de floresta em setembro de 1990. Esta obra de arte criada por François Davin e  simboliza a fragilidade da floresta contra o risco de incêndio, o renascimento da natureza e da estupidez humana, que é muitas vezes a causa de desastres naturais.

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A Capela do Santo Graal

O Rei Artur e os cavaleiros da mesa redonda estavam a procura do Santo Graal. Essa ligação foi consagrada por um padre que reformou a igreja de Tréhorenteuc no meio do século passado, criando mosaicos que ligam as lendas arturianas ao Santo Graal. Acima da porta de entrada da capela, a formula escrita convida à uma reflexão sobre as lendas e as verdades: “A porta está por dentro” (“La porte est en dedans”)…

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Fica localizada no Vale sem retorno. Os vitrais da igreja são todos ilustrados com imagens dos cavaleiros da távola redonda e a busca pelo Graal.

A árvore de Guillotin

Essa árvore com mais de 1000 anos de existência, que está resistindo bravamente a passagem do tempo, serviu de abrigo ao sacerdote Guillotin, que se escondeu nela durante os terríveis anos da Revolução Francesa. De seu nome deriva o nome da famigerada Guilhotina, que tanto trabalhou nos anos da revolução francesa…

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Por dentro dessa fenda caberia um homem??

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A Tumba de Merlin

Vestígios de uma alameda coberta de cerca de 1500 a.C.. Segundo a lenda, ali o mago Merlin teria sido preso em nove círculos mágicos pela sua amante, a fada Viviane.

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No caminho pela floresta esses são os símbolos que indicam a tumba de Merlin…

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Nos romances, Merlin foi o criador da Távola Redonda, e está sempre associado ao tutor de Arthur. Ele é pintado por Geoffrey de Monmouth, ao término da vida de Arthur, acompanhando-o ferido para a Ilha de Avalon para a curar suas feridas.

A Fonte da Juventude

Próxima ao túmulo de Merlin, encontra-se esse poço sagrado pelos celtas, local de batizado das crianças druidas…

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Durante o solstício de verão, uma cerimônia era realizada, na qual os bebês nascidos naquele ano eram batizados e registrados por um sacerdote na beira da fonte. Por acaso, se alguma criança não comparecesse, ela era registrada apenas no ano seguinte como recém-nascida, apesar de já ter mais de um ano de idade. Assim começou a lenda da Fonte da Juventude.

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A Floresta de Broceliánde apresenta várias outras áreas de interesse, principalmente para os estudiosos e amantes da cultura celta… essas foram nossas escolhas para esse passeio. Incrível pensar que em pleno século XXI, a crença em um mundo mágico, místico, paralelo ao que vivemos ainda é muito forte, e arraigada nessa cultura e religião que é mais antiga que a cristã.

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Carpe Diem!!!

 

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